Orientação, Desafio vezes dois
Orientação de Precisão e Orientação Adaptada. Duas propostas originais que apelam ao intelecto. Duas formas diversas de praticar desporto fora de portas. Dois apaixonantes desafios ao encontro da inclusão. Todos diferentes, todos iguais!
Mergulhado nos seus pensamentos, Hélder fixava atentamente o mapa seguro entre as mãos. Aquela profusão de linhas, cores e símbolos desfilando ante os seus olhos, tinha no terreno em frente a respectiva correspondência. Ao longe, quatro balizas, quatro prismas de cor laranja e branco, ondulavam ao sabor da fresca brisa matinal. Eram elas o alvo da sua atenção, a fonte de todas as indecisões. Quatro balizas, das quais apenas uma representaria a resposta acertada. É este o desafio da Orientação de Precisão: um mapa, uma bússola e uma profusão de balizas espalhadas ao longo dum percurso a pedir que se olhe para elas e se lhes diga que sim. Ou que não!
Hélder é paraplégico, importa dizer. Um acidente de viação fez voar em estilhaços os sonhos próprios da sua juventude, ao mesmo tempo que o atirava para uma cadeira de rodas. Mas não conseguiu roubar-lhe - antes reforçou! - a capacidade de acreditar em si, o querer e a vontade de se superar. E isso será tanto mais significativo, porquanto conseguido de igual para igual, em frente a um tabuleiro a jogar Xadrez com o pai ou, como aqui, no belo e verde parque, a fazer Orientação de Precisão.
Orientação de Precisão, o que é?
Juntamente com a Orientação Pedestre, em BTT e em Esqui, a Orientação de Precisão forma o conjunto de quatro disciplinas que encontram abrigo no seio da Federação Internacional de Orientação. Porém, ao contrário das restantes, aqui as capacidades físicas são relegadas para segundo plano. O acento tónico é colocado na componente intelectual. O vencedor não é aquele que completa a prova no mais curto espaço de tempo, antes o que acerta mais balizas, que o mesmo é dizer, o que consegue o maior número de respostas correctas.
O desafio é simples. No início, cada participante recebe um mapa e um cartão. No primeiro, encontra-se desenhado um percurso que deve ser cumprido pela ordem previamente estabelecida. No segundo deverão ser assinaladas as respostas, de “A” a “E”, consoante o número de balizas existentes no ponto (a contagem faz-se da esquerda para a direita, correspondendo a letra “A” à baliza mais à esquerda, a letra “B” à seguinte e assim sucessivamente), ou com a letra “Z”, no caso de nenhuma das balizas estar certa. As coisas só começam a complicar-se na hora de decidir. A orientação correcta do mapa, a capacidade de leitura do relevo, da vegetação e das distâncias e as noções de sinalética são aspectos cujo domínio se revela de capital importância. Para tornar tudo ainda mais complexo, há os chamados pontos cronometrados, onde a rapidez de decisão conta. Tudo é rigoroso, exacto, preciso. Orientação de Precisão... precisamente!
Importância do desporto na reabilitação
Foi este desafio, entusiástica e prontamente abraçado pelo Hélder, que o levou a apaixonar-se pela modalidade. A proposta surgiu quando estava internado no Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital da Prelada, cujo Núcleo de Desporto Adaptado tem tido um papel crucial no relançamento e na dinamização da modalidade. Para os responsáveis do Núcleo, “esta é uma modalidade que tem tudo a ver com os processos de reabilitação em curso, não apenas ao nível físico, através da recuperação dos grupos funcionalmente afectados, mas igualmente do ponto de vista psicológico e social”. Com efeito, ser confrontado com problemas complexos e ter a capacidade de os resolver é um factor que aumenta sobremaneira a auto-estima. Poder fazê-lo em grupo, com a família e os amigos, num espaço natural de liberdade e evasão, é “ouro sobre azul”.
O dia 14 de Março de 2009 marcou o regresso da Orientação de Precisão ao nosso país e a forma como a modalidade vem sendo acarinhada tem concorrido para a sua consolidação ao longo destes quase três anos. Fernando Costa, elemento da Comissão Técnica de Orientação de Precisão da Federação Portuguesa de Orientação (FPO) e na altura Presidente do Grupo Desportivo dos Quatro Caminhos, recorda aquele dia tão especial: “A nossa Associação já tinha organizado uma prova desta natureza há uns anos, mas entretanto as coisas praticamente morreram. Aceitámos com algumas reservas e natural expectativa o repto lançado pelo Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do Hospital da Prelada. Tivemos apenas a participação de três atletas em cadeira de rodas, mas foi o princípio duma bela amizade.” Hoje, o número de eventos levados a cabo pela colectividade matosinhense aproxima-se das duas dezenas e a quantidade de adeptos não pára de crescer. Muitos e bons motivos para continuarmos atentos a uma modalidade “com pernas para andar”.
Orientação Adaptada dá os primeiros passos
“Com pernas para andar” - mas também com muita “cabecinha” -, acaba de surgir em Portugal uma nova modalidade. Chama-se Orientação Adaptada, é vocacionada para pessoas com Deficiência Intelectual e apresenta inúmeros pontos de convergência com a Orientação de Precisão. Podendo mesmo ser vista como uma extensão da Orientação de Precisão, a Orientação Adaptada recolhe da “irmã mais velha” um vasto leque de conceitos, nomeadamente no que respeita ao número de balizas em cada ponto e à exigência de assinalar num cartão a resposta correcta, afinal a essência do “jogo”.
Prontamente acarinhada pela ANDDI - Associação Nacional do Desporto para a Deficiência Intelectual, a Orientação Adaptada fez a sua estreia no passado dia 14 de Outubro, no Parque da Cidade do Porto, com um percurso de lazer ao qual se dá o nome de Actividade de Orientação Adaptada. Marinha Grande, Vila do Conde e Vieira do Minho tiveram entretanto oportunidade de receber iniciativas desta natureza, o primeiro degrau dum trajecto que se pretende cada vez mais complexo e que se estima longo e frutuoso. Para o Director Executivo da ANDDI, José Costa Pereira, a Orientação Adaptada tem, numa primeira fase, “um valor não competitivo, o que se enquadra perfeitamente na filosofia da ANDDI. O que hoje constituiu uma primeira experiência é realmente a essência, o nascimento duma nova modalidade.” E conclui: “Há muito caminho a percorrer mas os primeiros passos deixam-nos muito satisfeitos”.
Futuro risonho
Na Orientação Adaptada, o desafio é necessariamente diferente. Cada baliza apresenta um quadro onde, à frente duma figura, se encontra desenhada uma sequência de cores. O participante tem apenas de estabelecer a correspondência adequada entre as sequências assinaladas no mapa e aquelas que se inscrevem nas balizas dispostas no terreno. Cada resposta certa corresponderá a uma determinada figura, a qual deverá ser assinalada no cartão.
Capacidade de interpretar sequências, de relacionar grupos diferentes entre si – cores e símbolos – e de estabelecer de forma adequada a sua correspondência, tais são as capacidades inerentes à actividade e aqui postas à prova. “Se a isto juntarmos um espaço natural, fora da instituição, de partilha de vivências e experiências, podemos perceber a importância que esta modalidade poderá vir a ter no futuro”, conclui Fernando Costa.
Por: Joaquim Margarido
Não percas o artigo "Orientação, desafio vezes dois" na Revista Outdoor nº3




